Febraban Podcast #05 - Como a longevidade impacta o investimento em moradia no Brasil
Sumário Regulatório
O Brasil vive uma transição demográfica, e enfrenta desafios para adaptar suas moradias, cidades e modelos de convivência a uma população cada vez mais longeva. Idade mais avançada exige planejamento, autonomia e ambientes preparados para garantir qualidade de vida para o idoso, ao longo do tempo; esse é um tema que impacta famílias, mercado imobiliário, políticas públicas, os sistema de saúde e financeiro. No novo episódio do Febraban Podcast, discutimos como a longevidade está transformando a forma de morar no Brasil, a partir de modelos de residenciais que são muito comuns em outros países. A conversa aborda envelhecimento ativo, economia prateada e investimentos em novos tipos de habitação que combinam acessibilidade, serviços, tecnologia e convivência, além dos desafios de financiamento e do papel do setor público e privado na construção de soluções sustentáveis. Neste episódio, você vai descobrir: - Por que as novas formas de morar são centrais para envelhecer com autonomia - Como a longevidade muda o mercado imobiliário - O que são os novos empreendimentos voltados ao público maduro - Os desafios do crédito e do financiamento para a população idosa - O papel das políticas públicas e das cidades no envelhecimento saudável Com: Alexandre Kalache, médico gerontólogo e referência internacional em longevidade, e Joseph Nigri, fundador da Naara Longevity Residence, sob condução de Mona Dorf, diretora-adjunta de Mídias Sociais da Febraban. Novos episódios do Febraban Podcast toda quinta-feira. FICHA TÉCNICA: Apresentadora e Editoria-chefe: Mona Dorf Supervisão Geral e Co-apresentação: Carlos Cidra e Majory Marcelino Supervisão e Produção: Bianca Braga, Julia Alcassa e Leandro Lemella Roteiro, edição e produção: Rachel Cardoso, Lizely Naoum, Patrícia Travassos e Clovis Travassos Edição de vídeo: Leonardo Reali e Kris Arruda Videomaker backstage: Kris Arruda Gravação: Supernova Cinematográfica
Transcrição e Conteúdo
Nós vamos viver mais. Isso tá dado estatisticamente. A expectativa de vida aumenta cada ano >> e a revolução da longevidade vai ter impacto em todos os setores da sociedade. Não é só saúde, né? >> Mas o desafio agora não é apenas viver mais, mas viver melhor, com autonomia, com mobilidade e qualidade de vida até o final. >> E a pergunta que todo mundo faz é como a gente vai c...
estatisticamente. A expectativa de vida
aumenta cada ano
>> e a revolução da longevidade vai ter
impacto em todos os setores da
sociedade. Não é só saúde, né?
>> Mas o desafio agora não é apenas viver
mais, mas viver melhor, com autonomia,
com mobilidade e qualidade de vida até o
final.
>> E a pergunta que todo mundo faz é como a
gente vai chegar lá. [música] Saúde é
criada no contexto do dia a dia, onde
você mora e aí está a questão da
moradia, onde você trabalha, como você
se locomóvel, como você ama, como você
se diverte. Isso é o que cria saúde.
>> Os empreendimentos, eles têm que
proporcionar isso, né? A convivência
entre as pessoas e a prática de
atividades.
>> E é a tal da economia prateada.
>> Então, todo mundo tá preocupado como
chegar lá e muitas pessoas sabem o que
tem que fazer. A questão é como a gente
vai fazer isso, né? E [música] aí a
terceira pergunta é onde nós vamos fazer
isso?
Desculpe a descrição, mas quantos anos
você tem? Qualquer que seja a resposta,
esse episódio é para você. Porque, como
diz um dos nossos convidados, nunca é
tarde demais para se preparar para a
revolução da longevidade. Até 2050, mais
de 30% dos brasileiros vão ter mais de
60 anos. Mas o desafio agora não é
apenas viver mais, mas viver melhor, com
autonomia, com mobilidade e qualidade de
vida até o final. Hoje a expectativa de
vida aumenta, mas o tempo de dependência
no final da vida também. Em média, o
brasileiro passa 9 anos precisando de
cuidados intensivos antes de morrer. Na
Coreia do Sul, essa média é bem menor,
apenas de 3 anos. Diante dessa
comparação, a conclusão que a gente tira
é que o envelhecimento pode ser
diferente, dependendo de como a
sociedade se organiza e se programa.
Isso passa também por onde e como
vivemos. O modelo de moradia
tradicional, sem adaptação para quem
começa a enfrentar problemas de
mobilidade, por exemplo, já não dá mais
conta da realidade atual. Por isso está
nascendo no Brasil uma nova tendência,
os empreendimentos voltados para o
público 60 mais que combinam moradia,
serviços, tecnologia e convivência. O
melhor de tudo, um novo mercado que
movimenta a economia prateada e exige
inovação imobiliária, social e
financeira. No episódio de hoje do
Febraban News, a gente vai discutir esse
fenômeno e entender o que está mudando
na forma de morar e de envelhecer no
Brasil. Eu tenho o prazer de receber
dois convidados muito especiais que há
tempos eu queria muito trazer aqui pro
Febrabia News. O Alexandre Calachi,
médico gerontólogo, ex-diretor da
Organização Mundial da Saúde e um dos
maiores especialistas em longevidade do
mundo. Ele está em Belo Horizonte pro
lançamento do mais novo livro dele, que
é esse aqui, A Revolução da Longevidade,
e participa conosco remotamente.
Prazer em tê-lo, Calacho, eu sei que
você tá muito ocupado com o lançamento
do seu livro por aí, mas que bom que
conseguimos um tempinho com você.
>> Prazer é meu imenso poder exprimir um
pouquinho de tempo aqui para estar com
vocês. Desejaria que fosse muito mais,
mas eu sempre fui partidário do
envelhecimento ativo e agora ele virou
hiperativo.
>> Que bom. E aqui presencialmente em nosso
estúdio, eu agradeço demais outra pessoa
muito concorrida, o Joseph Nigri, que
deixou a presidência da Tecnica
recentemente para fundar a Nara
Longevity Residence, que vem investindo
em empreendimentos com foco em
acessibilidade, sustentabilidade e
qualidade de vida para o público maduro.
Que bom tê-lo também, Joseph. Eu sei que
seu tempo também é mais do que corrido,
ainda mais nessa cidade maluca que é São
Paulo.
>> Na verdade, Mona, obrigado. Eu que me
sinto honrado de estar aqui com duas
pessoas que eu admiro muito, né? O Dr.
Alexandre Calach é o papa da longevidade
e você também admiro muito a sua pessoa
e toda a sua carreira. Então, tô muito
feliz de estar aqui para bater um papo
com vocês.
>> Muito obrigada. Bom, eu sou Mona Dorf,
diretora adjunta de mídias sociais da
FEBRAB e agradeço também desde já a sua
audiência.
Calachi, você acabou de completar 80
anos, então nós vamos começar com você e
o maior desafio de trazê-lo aqui pro
programa justamente encontrar espaço na
sua agenda entre palestras, lançamento
de livro, eventos que você tá toda hora
falando. Bom, envelhecer bem, assim,
todo mundo quer, né? Mas nem todo mundo
consegue. Na sua opinião, quais são os
fatores mais críticos para essa
conquista? o DNA ou o CEP onde a gente
nasce e mora.
>> A gente já começa com o DNA. Só 25% da
sua chance de envelhecer bem é
hereditário.
Eu quando era estudante de medicina a
gente brincava e dizia: "Quer envelhecer
bem? Quer chegar bem ou 100? Escolha bem
seus pais". Não é bem assim. depende
muito das suas escolhas, do seu
comportamento, seus estilos de vida e as
chances de você colocar em prática
aquilo que você sabe que é melhor. Saúde
é criada no contexto do dia a dia, onde
você mora, e aí está a questão da
moradia, onde você trabalha, como você
se locomóvel, como você ama, como você
se diverte, isso é o que cria saúde.
Claro, quando não dá certo, você vai
precisar de profissionais mais bem
treinados para lidar com uma população
que só faz envelhecer. Desde o ano 2000,
né, nós temos taxas de notalidade abaixo
da reposição. Significa que dois, um
casal não está gerando dois filhos,
portanto não há reposição. O único grupo
que cresce desde o ano 2000 é o grupo de
se já. E isso vai ser a característica
ao longo do século XX. Portanto,
políticas voltadas para o envelhecimento
de vocês. Eu não tô falando mais do meu
não. Eu daqui a pouco eu sei. Eu sou
gerontólogo, daqui a pouco eu fui
embora. Tô querendo deixar um mundo
melhor onde o jovem de hoje almeja
envelhecer bem. E é a tal da economia
prateada. Porque se o único grupo que
vai crescer é o de sexagenes, não
adianta ficar fazendo apartamento de
estúdio de 15 m qu, porque não é esse o
apartamento que um quem pode e tem
recurso vai querer comprar. ele tem que
ser integrado. Discutir isso muito com a
área. Eu acho que
demografia destino
e a revolução da longevidade vai ter
impacto em todos os setores da
sociedade, não é só saúde, não
conhecimentos, aprendizado ao longo da
vida, o direito de participar da
sociedade, que é fundamental, questão de
direitos e também de segurança, de
proteção que os novos empreendimentos
imobiliários devem tornar.
práticos.
>> Olha, antes da gente falar do DNA ou do
CEP, que a moradia, Joseph, eu queria
lembrar de uma coisa, já que o professor
citou, bom, você tem cinco filhos, mas
eu pensei também no que mantém saúde é
ginástica e atividade física, né? E me
impressionou porque totalmente por acaso
a gente acabou se encontrando ontem e
você estava nadando, jogando pola 10
horas da noite, professor. Esse esse
jovem aqui. Então, e eu tenho um pai que
já tem, enfim, mais de 90 anos e ele com
muita dificuldade de saúde agora. Ele,
eu, eu vejo que ele tá bem resistindo
porque ele fez muita atividade física o
tempo todo. Esse é um componente também
que a gente tem que falar, né? Sem
dúvida. E acho que dentro do que o
professor tava falando, acho que os
empreendimentos eles têm que
proporcionar isso, né? A convivência
entre as pessoas e a prática de
atividades, né? Você tem que tá com a
cabeça ativa e o corpo ativo. Então acho
que todo mundo sabe que tem que, né? Se
você quer dizer, nós vamos viver mais.
Isso tá dado estatisticamente. A
expectativa de vida aumenta a cada ano.
Se Deus me livre, não tiver nenhum
acidente de percurso, a gente vai chegar
lá. E a pergunta que todo mundo faz é
como a gente vai chegar lá. Então, o
professor tem uma frase maravilhosa que
fala assim: "A ciência conseguiu dar eh
anos à nossa vida. Agora nós temos que
dar vida aos nossos anos, não é,
professor? Por quê? Não adianta nada
viver 100 anos numa cadeira de roda sem
conseguir se mexer. Então, todo mundo tá
preocupado como chegar lá e muitas
pessoas sabem o que tem que fazer.
A questão é como a gente vai fazer isso,
né? E, e aí a terceira pergunta é onde
nós vamos fazer isso? Como nós vamos
viver? Todo mundo fala muito onde nós
vamos viver. Entra um conceito chamado
aing place, que é você envelhecer no seu
local de moradia, no seu imóvel, e não
ter que sair para ir para uma clínica,
para uma instituição, que, apesar de
serem locais, acho que muito importantes
pro pra nossa sociedade que existam, mas
a maioria das pessoas não sonham em
morar nesses lugares, né? elas sonham em
morar no apartamento dela, só que aí o
custo começa a ficar muito alto e você
não tem e muitas das coisas que você
precisa em termos de acessibilidade
e e aí vem a ideia de criar um
empreendimento focado em longevidade,
onde as pessoas possam conviver, estar
ativas e ainda compartilhar despesas.
>> E bom, numa nova visão, envelhecer com
autonomia parece ser um novo grande
indicador de desenvolvimento humano, né?
Eu queria ouvir vocês dois começando eh
bom pelo professor Calast e depois pelo
Joseph. Eh eh é bem essa esse exemplo
que a gente citou aqui na abertura, né,
da comparação da Coreia com o Brasil.
Eh, na verdade você ter uma dependência
de outros na na velice não é o ideal. E
aqui a gente tem quase 9 anos, enquanto
na Coreia você depende apenas 3 anos,
né? O senhor poderia falar um pouco
sobre isso, professor?
da Coreia é muito interessante. Eu sou
suficientemente velho para me lembrar
quando terminou a guerra desastrosa da
Coreia. Eu lembro do meu pai ouvindo a
Rádio Nacional, que era a forma como a
gente ouvia notícia e ele celebrando.
Que bom, paz. A Coreia era um país
pequeno, sem recursos. A Coreia era uma
um país que tava saindo de uma guerra
desastrosa, que não tem recursos
minerais, não tem petróleo, não tem nada
disso. O que eles investiram foi em
educação, educação, educação. Entrava
governo, saía governo, comprometimento
com educação permanecia. O Brasil tinha
uma renda per capta nos anos 50, 10
vezes maior do que o da Coreia. Hoje a
Coreia tem uma renda percapita 4 vezes e
meia maior que o Brasil.
Então essa questão de colocar mais vida
aos anos depende de políticas
intersectoriais, mas o fundamento
do fato de nós hoje estarmos utilizando
tecnologia da Coreia, olhe pro seu
computador, olhe pro seu celular, olhe
pro carro que você dirige, é porque eles
investiram na educação. educação é
absolutamente fundamental e na Coreia é
da infância a velice. Está todo mundo
aprendendo a aprender sempre. Mas vamos
reverter isso na condição nossa do
Brasil para poder responder por que a
coisa aqui não tá dando certo. Primeiro
porque o brasileiro não se vê como
velho. Velho é sempre outro. E se é
sempre outro não atinge a mim. Eu não
tenho nada a ver com isso. E se eu for
homem, então é uma desgraça. O homem não
sabe cuidar. Deixa nas mãos das mulheres
e quer que as mulheres cuidem das
crianças, da do pai, da mãe, do sogro,
da sogra, do bisavô e do chato do
marido. Porque as mulheres no Brasil
ainda têm a mania de se casarem com
homens mais velhos. Então elas vão ficar
barra sozinhas, viúvas e empobrecidas.
A gente tem que pegar a demografia por
todo esse conjunto de fatores que fazem
com que alguns podem envelhecer bem. E
quando não envelhecem bem, a gente tem
que separar dois conceitos. Você falou
em autonomia, eu ouvi no que você falou,
independência.
É diferente. Independência é você viver
sem depender de alguém. É claro que no
mundo interconectado e urbanizado, a
gente tá sempre dependendo de
[limpando a garganta] alguém que faça
serviços, que possa fazer isso ou
aquilo. Tô falando do ponto de vista do
cuidado pessoal. A minha mãe me deu uma
grande lição. Ela teve uma queda e
sofreu uma fratura do qual femo. Tinha
uns 94 anos. Ela operou. A recuperação
foi imediata, ela tava muito bem. Dois
dias depois ela tava em casa numa
cadeira de rodas. Claro, a gente
cuidadoras para poder ajudar. Ela estava
dependente.
E quando eu cheguei, eu assim, como é,
mocinha? Agora vamos levantar, né? É
quê? Para andar, para ir pra cozinha,
para ir pra varanda, para tomar sol,
para fazer compra. Não preciso. Como não
precisa? Você quer que eu caia de novo?
Não, claro que eu não quero mais. Então
não me manda andar porque questão de
tempo e eu vou cair. Vocês não estão
pagando essas aí? e mostrou foi um certo
desdém para trás apontando paraa
cuidadora do dia. Pois eu vou dizer para
elas, eu agora quero ir paraa cozinha,
agora eu quero cozinhar, agora quero ir
paraa varanda, eu quero tomar sol, agora
quero fazer compras. Eu não me importo
de perder a independência. O importante
é manter a minha autonomia e eu vou
continuar a viver de acordo com as
minhas próprias regras. Isso sim é
autonomia. E aí eu humildemente falei
assim: "É, mãe, tem razão, mas vamos
andar".
É isso que propicia essa possibilidade
da gente ter onde mora esse conceito do
aging in place, viver onde você sempre
morou. Para quê? Eu moro em, quando
estou no Brasil, moro em Copacapana, que
é o bairro mais envelhecido. E lá tenho
vizinhos que tem apartamentos de 400 m²,
já o ninho tá vazio, moram um sócio,
enfrentam a pandemia da solidão e não
tem mais capital para poder às vezes
consertar a eletricidade ou a
hidráulica. Vivem as escuras ou sem
água.
Vamos liberar esse patrimônio em seu
próprio benefício. Vamos diminuir e
fazer com que em vez de morar em 400 m²,
vai lá, seja 25, 40, 60, há várias
opções que que exatamente é o que nós
vamos ouvir agora em seguida. E você
pode com isso usufruir dos seus recursos
e manter-se independente e de
preferência com alto grau de autonomia.
>> Me parece, Joseph, que há uma certa eh
necessidade de mudança de cultura, né?
Antigamente as pessoas achavam que os
residenciais ou quando você morava com
mais gente eh era uma coisa assim e que
não era para todo mundo, né? Então, as
pessoas continuavam morando, como o
professor tá dizendo, num apartamento de
400, 600 m² e solitárias. Eu queria
saber se do ponto de vista do mercado
imobiliário, as construtoras e
incorporadoras estão e respondendo essa
nova demanda. Elas percebem isso? Como
você percebeu? Como é você decidiu dar
uma virada, né, embarcando nessa nova
tendência que pode pode ser um risco ou
não? Como é que surgiu essa ideia? Eu
queria que você desse um panorama pra
gente.
>> Acho que esse caso que o professor
Alexandre comentou que eu tenho também
um caso na família, minha avó que
acabou, infelizmente, vindo a falecer,
mas se a gente perguntar na rua de cada
10, acho que oito, vão falar que tem
alguém na família numa situação igual ou
parecida. Então os apartamentos são
muito grandes, os apartamentos são
antigos, os filhos já foram embora.
Muitas vezes é uma viúva ou é um um pode
ser um viúvo menos provável, mas um
casal que se divorciou e depois
envelheceu. Quer dizer, a pessoa tá
sozinha.
>> Uhum. dando trabalho, custando caro. E
quando você propõe pra pessoa, vamos
mudar de apartamento, ela já imagina que
você tá querendo levar ela para uma casa
de repouso ou para um asilo e
automaticamente a pessoa fala: "Não, não
quero sair daqui". Então, não existe eh
algum lugar fora do Brasil, por exemplo,
tem muitos nos Estados Unidos e na
Europa, lugares que você entra e fala
assim: "Eu quero morar aqui". Isso aqui
é um resorte da terceira idade, né?
Então as pessoas almejam, elas aspiram
ir para esses lugares. Então eu acho que
tem uma questão cultural sim que com o
tempo eu acho inevitável e essa situação
de morar sozinho e de forma ineficiente.
Se a pessoa vivia mais 5 anos, mais 7
anos, 8 anos, é uma coisa, mas vai viver
mais 20 anos, não dá. Precisa ter uma
virada de chave. E aí entra na minha
visão, o mercado imobiliário. Existe uma
tendência no mercado imobiliário hoje
chama de branded residence. São
residências com assinatura.
Normalmente isso vem agregado com
serviços e, enfim, arquitetura,
muito no lado da hotelaria, né? Então
você tem várias marcas, bandeiras
hoteleiras que assinam empreendimentos
imobiliários e oferecem uma série de
serviços. Então, todo mundo busca
independência e autonomia, não só na
terceira idade, mas alguns serviços que
na terceira idade você precisa além do
que limpeza e lavanderia e café da
manhã. Você vai precisar de serviços de,
já falamos aqui de atividades, cabeça,
corpo ativo, mas também de saúde e
emergência. Então, por exemplo, nossos
empreendimentos vão contar com uma
central 24 horas de emergência. Se a
pessoa tiver uma queda, um engasgo, um
infarto, um AVC, você tem um atendimento
na hora. Isso evita morte, evita
sequelas e pode melhorar a qualidade de
vida das pessoas a longo prazo. Agora,
então essa visão que você sai de um
apartamento grande para um menor, eu
costumo dizer que nós vamos oferecer um
downsizing, mas sem um downgrade. Às
vezes até um upgrade.
>> O contrário, né? que pode ser um
downsizing de espaço físico, mas um
upgrade de serviços para você ter uma
possibilidade de de a a ter algum
problema de saúde, ter correr lá embaixo
e ter uma enfermaria. O que o que que
seria?
>> Muitas vezes é um upgrade com relação ao
que ela tinha.
>> Entendi.
>> Mas também com relação à forma como ela
vai viver. Quer dizer, wellness, né?
Acho que wellness é uma coisa que também
tá na moda assim do mercado, não só do
mercado imobiliário. Acho que todo mundo
busca prazer, satisfação. Na terceira
idade tenho notado que mais ainda pessoa
fala: "Olha, cheguei até aqui,
conquistei meus filhos estão crescidos,
eu vou curtir minha vida, eu ganhei meu
dinheiro, eu tenho meu patrimônio, eu
vou fazer massagem, eu vou viajar, eu
vou". Então, as pessoas querem eh viver
bem, ter prazer. E aí entra essa camada
do wellness, eh que também é importante,
além obviamente do do do de todos os
serviços que a gente falou aqui. E eu
sinto que os idosos do passado são muito
diferentes dos idosos de hoje, né? Bom,
nem precisa dizer com relação a, eu
achei um recorte de jornal antigo que
falava assim: "Ônibus atropela idosa de
55 anos". Mas tava no jornal, porque era
assim, eu tenho visão da minha bisavó,
acho que ela tinha 65 anos, parecia que
ela tinha 90, né? Cabelinho curtinho,
bengala, aquele casaquinho. Então, e
hoje é totalmente diferente. E naquela
época os filhos cuidavam mais dos pais.
Às vezes o pai morava com os filhos ou
tava lá o filho todo dia. Hoje,
primeiro, a pessoa tem menos filhos,
como o professor falou, a taxa de
natalidade caiu. Às vezes não tem filho,
às vezes tem um filho, esse filho
trabalha, mora fora, não tem tempo para
ficar, para cuidar, para levar para lá e
para cá, ou os filhos também vem com
diferença de idade maior. Então, hoje as
pessoas falam: "Eu não quero dar
trabalho, eu não quero ser um peso na
vida dos meus filhos, eu quero me
resolver sozinho". E aí entra a questão
da da autonomia, da independência. E o
lugar onde você mora tem que propiciar
isso, porque você pode ter independência
e autonomia a um custo muito caro se
você tiver um monte de gente trabalhando
para você.
>> Uhum.
>> Mas entra o capítulo aqui das finanças,
que acho que a gente tá na Febraban, a
gente pode falar um pouco de da finança
dos idosos, que cada vez a pessoa vai
vivendo mais, o custo vai aumentando
cada vez mais. E aí como é que fica? Eu
tenho um patrimônio, mas eu não sou
economicamente ativo, não, que nem eu
era antes. Eu tenho minhas reservas, eu
tenho meus rendimentos, meus
investimentos, minha previdência, mas
com as despesas crescendo, isso vai se
tornando cada vez mais um desafio. Então
você vender talvez o apartamento grande,
comprar o menor, deixar a diferença
aplicada, morar num lugar onde você
compartilha despesas e você pode ter
todo esse serviço, por exemplo, que eu
falei de emergência 24 horas, sem você
tem que ter cuidadores 24 horas, sai
muito mais barato.
>> Uhum. Calach, você criou e implantou há
mais de uma década junto a OMS o projeto
Cidade Amiga do Idoso. Eh, compartilha
com a gente que tipo de ambiente urbano
e comunitário favorece a autonomia das
pessoas mais velhas?
>> O ambiente urbano
é cada vez mais onde as pessoas vão
envelhecer. Há duas grandes tendências
globais. E eu me dei conta disso no
início do século, em 2002, eu soube que
as Nações Unidas variava para OMS, que é
o órgão especializado das Nações Unidas
para saúde. E eu soube com antecedência
que em 2005 a Organização das Nações
Unidas iria eh declatar decretar que a
maioria das pessoas estaria morando em
cidades. em 2030 já serão 2/3 essa
tendência crescente e que o Brasil já
tinha sido urbanizado ainda que
caoticamente no século XX.
Este é o século que vai ser
caracterizado por envelhecimento lado e
urbanização crescente do outro mundo
afora. As cidades estão preparadas para
esse envelhecimento? A resposta não. E
eu fui então quantificar isso no bairro
onde eu nasci, cresci, Copac Cabana, o
bairro mais envelhecido da América
Latina, fizemos um estudo qualitativo
perguntando paraas pessoas idosas do que
que você gosta, do que que você não
gosta, o que que você mudaria, quais são
os seus grandes medos.
Para minha surpresa, os grupos focais
chegavam sempre à mesma figura. Nosso
maior amigo é o porteiro.
É ele que está ali embaixo ainda, figura
física, que presta atenção, que
monitora, que avisa a filha que tá
passando pra visita quinzenal rapidinho.
Olha, sua mãe não tá bem, ela tá ficando
confusa. Olha, seu pai desde que ficou
viúvo, tá trazendo maus elementos. a
gente conhece aqui do bairro, ele está
se colocando sob risco e o próprio
prédio. Então nós fizemos um treinamento
por é isso que se propõe esses novos
empreendimentos, que você possa morar
onde sempre viveu, mas com mais
segurança. Não tem um dia que eu desça
no meu apartamento, no meu edifício em
Copacabana e que eu não vejo um, dois ou
três idosos que estão ali conversando
com o porteiro e passam horas e o
porteiro não é psicanalista que vai
dizer assim, ó, a sua sessão acabou,
agora sobe e esse estudo
ele deu margem a que eu pudesse
sensibilizar o governo Canadá. Fizemos
uma reunião em Vancouver e planejadores
urbanos, geralontólogos, acadêmicos. que
nós nos reunimos e desenvolvemos com
base naquela experiência improvisada de
Copacabana, um protocolo de Vancouver e
saímos na busca de 35 cidades afora,
onde colocamos a mesma metodologia, o
mesmo estudo e daí daí dos resultados
venceu o projeto da UMS Cidade Amiga
para as pessoas idosas. Hoje a rede da
OMS
tem mais de 1750
cidades de todos os tamanhos, mas há
milhares de outras que de uma forma ou
de outra buscam nesta fonte como se
inspirar para proporcionar ambientes
urbanos mais simples. Agora não se tudo
isso é muito bonito, tudo isso é
apropriado, mas nós vivemos um país
extraordinariamente
desigual. E o meu sonho fazer que uma
favela possa ser também mais ameoso,
fazer com que um pouquinho que a gente
possa fazer nessa desigualdade tremenda
em que a gente vive e que vai ter este
pouquinho um impacto social muito maior
do que a gente mexer na bolha e melhorar
as condições de vida para quem tem a
sorte de ser privilegiado.
>> Uhum.
Joseph, a gente já começou a falar de
finanças, né? Eh, em relação aos seus
empreendimentos, muda o modelo de
negócio quando a gente fala desse
público mais maduro? Eu pergunto no
sentido de que financiamento imobiliário
para esse público alvo é mais
desafiador, né? Vocês miram mais no
modelo de locação ou assinatura de
imóveis?
>> Nosso modelo é incorporação imobiliária,
tá? Na minha visão, esse é o modelo que
mais dá eh resultado nos últimos anos,
décadas. Você vê as empresas que mais
prosperaram foram nesse sentido. Então
eu optei por por fazer incorporação
imobiliária e onde mercado urbano,
empreendimentos verticais. Então,
conectando com o que o professor falou,
as pessoas querem viver na cidade também
na terceira idade, aquela ideia de vamos
sair. O americano ele tem uma cultura
diferente, talvez por motivos
climáticos, relações familiares, eles
saem de Chicago, Nova York e vão paraa
Flórida.
>> Aqui o brasileiro, mais especificamente
o paulistano, ele quer ficar na cidade,
ele quer ficar no bairro que ele sempre
morou, ele quer ficar perto da família,
quer ficar perto dos locais onde ele
frequenta, do restaurante, do
supermercado, etc. Tenho visto até gente
de fora de São Paulo, cidades menores,
na terceira idade vindo pra cidade,
porque sabe que aqui se precisa de um
hospital, alguma coisa, tem uma
infraestrutura melhor. Então, quando a
gente fala desse público e
principalmente dos níveis de renda, acho
que o desafio vai ficando cada vez
maior, porque como você disse, já que a
incorporação a gente tá vendendo, a
pessoa precisa comprar para ela comprar
ou ela tem dinheiro ou ela tem que ter
crédito, né? E para dar crédito para um
idoso, o crédito imobiliário é um
crédito de longo prazo. Se ele é um
idoso, ele tem uma expectativa de de
vida menor. Então, ou ele vai custar
muito caro ou os bancos vão acabar tendo
um limite de idade, não vão conceder,
né? Que que eu acredito que tem que
acontecer? Como foi falado, o país é
muito desigual, a gente tem eh tem PIB,
mas tem uma distribuição de renda muito
eh concentrada. Eu entendo que o governo
tem que ajudar por é um problema social,
né? Então, cada vez mais idosos
convivendo nas famílias, nas casas, nos
bairros. E assim como o governo criou
Minha Casa, Minha Vida, que é um
programa muito bem sucedido, quer dizer,
todo ano estão entregando milhões de
unidades, as pessoas estão conseguindo
financiar com taxas mais baixas.
Também acho que o governo precisa criar
algum tipo de incentivo ou subsídio
paraa moradia da terceira idade. Senão a
iniciativa privada não vai conseguir um
modelo de negócio que seja rentável. Se
não for rentável, as pessoas não vão
fazer, o empreendedor não vai fazer. O
modelo de aluguel, por exemplo, ele já
não é muito rentável o aluguel
residencial no Brasil, porque a nossa
taxa de juro é muito alta, flutua muito,
você faz um uma previsão de longo prazo,
você tem que cobrar um aluguel muito
alto. Na terceira idade isso é mais
complexo, por e na dlência. Então, se o
idoso não paga, que que você vai fazer?
você vai despejar o sujeito pro mercado
de alto padrão, médio, alto e alto. Em
São Paulo, nós estamos lançando esse
empreendimento. Tem algumas outras
incorporadoras com iniciativas similares
e e fora de São Paulo, você tem, por
exemplo, em Curitiba o BIOS, que foi um
empreendimento também no modelo de
incorporação imobiliária, que foi super
bem sucedido, vendeu 90% das unidades.
Eh, e acho que vai começar a surgir cada
vez mais, mas a gente tem notado que são
bairros nobres, né? Para isso chegar nas
camadas de renda mais baixa, precisa ter
ajuda do governo.
>> Calachi, você compartilha dessa dessa
opinião de que tem que ter política
pública eh para construção de desses
imóveis da terceira idade?
>> Absoluto. Sim, não há dúvida alguma. E o
exemplo de minha casa, minha vida, eh,
mas não é só. Nós precisamos de
políticas públicas, mas precisamos
também de parcerias público-privadas.
Porque 83%, por exemplo, das pessoas com
mais de 60 anos dependem única e
exclusivamente do SUS. Então, se não
houver uma parceria públicoprivada paraa
área de saúde,
as pessoas vão acabar com serviços de
terceiro, quarto padrão. A mesma coisa
em relação a moradias. Nós temos que
estimular também os empresários para que
pensem num país como o nosso, em que
você pode também fazer parte da solução
através de parcerias com o privadas.
Calá, como você vê do seu lado como
consultor, você vê o maior interesse dos
fundos, dos bancos, em financiar esse
novo conceito de moradia para idoso?
Vejo, vejo com grande frequência
sou muito convidado para fazer palestras
no setor financeiro.
Eu sou consultor e há muitos anos, com
muito orgulho da Bradesco Seguros, eu
vejo sim que existe um interesse
crescente. Acho que é importante e acho
também importante educar o empresário.
Não é só educar a massa, é educar
aqueles que comandam.
e influenciam as decisões não só no
setor privado, mas também acaba
influenciando o setor público.
>> Uhum. Tá certo. Bom, quero já te
agradecer, eh, Calachia, aqui a
participação. Eu sei que você tá apurado
aí para dar uma entrevista. Eh, muito
obrigado por estado com a gente aqui.
São sempre preciosas as suas palavras.
Bom lançamento também, antes de mais
nada, né? Não só boa entrevista em BH,
mas também bom lançamento. Eh, voltando
aqui para quem não ouviu a gente no
começo, é esse livro, A Revolução da
Longevidade, né?
>> Eu já ganhei o meu com dedicatória e
tudo.
>> É, eu vou querer o meu também. [risadas]
>> Muito obrigado. Uma boa tarde para vocês
e lá vou eu enfrentar o meu
>> ob
>> hiper ativo envelhecimento.
É isso aí. É isso aí. Obrigada, Joseph.
Muito obrigada pela participação, por
ter vindo aqui até o nosso estúdio aqui
na Febraban. O episódio de hoje mostrou
que longevidade e moradia são mais do
que temas de arquitetura e engenharia,
mas sim temas de sociedade e
comportamento. Envelhecer bem exige
planejamento urbano, inovação
tecnológica e, acima de tudo, uma
mudança de mentalidade. Ver a idade não
como um fim, mas como potência que
precisa ser protegida e cuidada para que
a longevidade tenha qualidade. Então,
agradeço novamente.
>> Eu que agradeço. Muito obrigado. você,
nossos convidados, o Calachi, referência
mundial em longevidade, né? Aliás, aos
80 anos, ele nos inspira a todos com
essa independência, saúde, energia, né?
Lançando livro, muito legal. E Joseph
Nigre, fundador da Nara Longevity
Residence, eh, vocês dividiram conosco
visões muito interessantes e
complementares, né, sobre o futuro do
viver e envelhecer aqui no Brasil. E
agradeço também a você internauta, que
nos segue sempre, nos acompanhou até
agora. Eu sou Mona Dorf, diretora
adjunta de mídias sociais da Febraban.
Que a gente siga juntos construindo um
país onde envelhecer seja de fato uma
conquista. Até a próxima.
>> [música]
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