Febraban Podcast #14 - Como o Brasil Pode Ganhar Influência Global?
Sumário Regulatório
O que faz um país ser influente no cenário global? E por que algumas nações conseguem transformar reputação em protagonismo, enquanto outras ainda enfrentam dificuldades para converter potencial em poder real? No novo episódio do Febraban Podcast, discutimos o conceito de soft power – a capacidade de influenciar por meio da cultura, dos valores, da credibilidade e da confiança – o papel do Brasil nesse cenário. Apesar de ser reconhecido internacionalmente por símbolos culturais e esportivos como Carnaval e o futebol, o país ainda enfrenta desafios para transformar essa imagem em influência concreta. A conversa explora o paradoxo brasileiro: uma nação com forte presença cultural e econômica, mas que ainda precisa avançar na construção de reputação consistente, estabilidade institucional e visão de longo prazo para fortalecer sua posição global. Neste episódio, você vai entender: O que é soft power e por que ele se tornou estratégico na economia global Por que o Brasil tem grande potencial, mas ainda subaproveitado O papel da reputação, da confiança e da governança na construção da influência internacional Como empresas e instituições financeiras contribuem para projetar a imagem do país Por que a agenda ambiental, a inovação e a cultura podem ser ativos decisivos para o Brasil Com Silvana Machado, diretora-executiva do Bradesco e Sérgio Valle, economista-chefe da MB Associados. Condução de Mona Dorf (Febraban). Assista no YouTube ou ouça no Spotify. Novos episódios do Febraban Podcast toda quinta-feira. Ficha técnica: Apresentadora e Editoria-chefe: Mona Dorf Supervisão Geral e Co-apresentação: Carlos Cidra e Majory Marcelino Supervisão e Produção: Bianca Braga, Julia Alcassa e Leandro Lemella Roteiro, edição e produção: Rachel Cardoso, Lizely Naoum, Patrícia Travassos e Clovis Travassos Edição de vídeo: Leonardo Reali e Kris Arruda Videomaker backstage: Kris Arruda Gravação: Supernova Cinematográfica
Transcrição e Conteúdo
Segundo o Global Soft Power Index 2026 da consultoria Brand Finance, o país ocupa hoje a 29ª posição entre 193 nações, sendo o mais bem colocado da América Latina. Esse é um conceito subjetivo, muito subjetivo. A gente tem um poder econômico relativamente considerável quando a gente compara o resto do mundo, mas o soft power não conseguiu virar algo relevante nesse sentido. Ele...
da consultoria Brand Finance, o país
ocupa hoje a 29ª posição entre 193
nações, sendo o mais bem colocado da
América Latina. Esse é um conceito
subjetivo, muito subjetivo. A gente tem
um poder econômico relativamente
considerável quando a gente compara o
resto do mundo, mas o soft power não
conseguiu virar algo relevante nesse
sentido. Ele parte também de uma
construção. Para você ter um soft power
que de fato seja vigoroso, robusto, tem
um passo antes que você precisa ter, que
é uma estabilidade institucional e
econômica.
>> Não é só falar, é fazer, né? E as
grandes empresas elas têm esse papel,
né, de ir lá fora, de fazer negócios bem
feitos, de projetar uma imagem de de
ética. Então, a gente tem ativos que são
relativamente naturais e que servem
também de uma forma natural e sem fazer
grande esforço, como venda de imagem lá
fora.
Hoje nós vamos falar de um conceito cada
vez mais relevante nas relações
internacionais e na economia global, o
chamado soft power, que é a capacidade
de um país exercer influência por meio
de cultura, dos valores e da
credibilidade. Esse é um campo em que o
Brasil tem um potencial enorme. Segundo
o Global Soft Power Index 2026 da
consultoria Brand Finance, o país ocupa
hoje a 29ª posição entre 193 nações,
sendo o mais bem colocado da América
Latina. Os destaques vão para áreas como
esporte, biodiversidade, cultura e
patrimônio, atributos que ajudam a
projetar a nossa imagem no exterior. Mas
há um paradoxo, apesar da visibilidade e
da simpatia internacional, o Brasil
ainda enfrenta dificuldades para
converter esse reconhecimento em
protagonismo. E para aprofundar esse
tema, eu recebo aqui no estúdio da
FEBRAB hoje o Sérgio Vale, economista
chefe da MB Associados, PhD em relações
internacionais e autor do livro Impacto
da Economia e das Instituições no Soft
Power e no Hard Power. Prazer em te
receber aqui. Seja bem-vindo, Sérgio.
>> Prazer. É mesmo.
>> Está conosco também a Silvana Machado,
diretora executiva do Banco Bradesco e
responsável pela área de pessoa, cultura
e performance e sustentabilidade. Seja
bem-vinda, Silvana. Que bom ter você com
a gente. Eu sei que foi difícil, sua
agenda é bem complexa, mas muito bom
poder ter um pouco do seu tema. Eu que
agradeço. Um prazer estar aqui, discutir
esse tema que é bastante relevante aqui
pra gente. Obrigada.
>> Essa será uma discussão importante para
entender porque o Brasil ainda explora
pouco o seu soft power. Eu sou Mona
Dorf, diretor adjunta de conteúdo
digital da Febraban e agradeço desde já
a sua audiência.
[música]
>> Sérgio, vamos começar com você. Esse
poder de persuasão de um país que nós
estamos aqui comentando, eh, é também
conhecido como soft power. Você poderia
definir pra gente esse conceito e como é
possível mensurar se um país e tem mais
ou menos poder de atração? Olha,
soft power é um conceito que foi criada
há muito tempo atrás, em 1990, pelo
Joseph Nike, que é um professor
americano que cunhou esse termo no
momento muito específico da humanidade.
A gente passou décadas, desde a Segunda
Guerra Mundial, com a disputa entre a
União Soviética e Estados Unidos no hard
power, que é o poder militar, que é o
poder de coersão, você obrigar a o outro
país, a outra pessoa, a outra
organização fazer o que ela não
desejaria fazer, mas é o que você quer
que ela faça. O soft power vai num outro
caminho. Eu sou um país que tem
riquezas, que tem cultura, que tem n
diversidades possíveis de instituições
de poder e eu te atraio, sem precisar
fazer nenhum tipo de coação em cima de
você. E veio essa ideia do soft power,
que é justamente isso, você usar os
poderes da cultura, dos esportes, das
relações internacionais via diplomacia,
dos organismos internacionais para você
ser um instrumento de atração dos outros
países.
>> E Sérgio, quais são os benefícios que
essa capacidade de influenciar por meio
de atração e persuasão traz para os
países?
Esse é um conceito subjetivo, muito
subjetivo. Tanto que a gente tem alguns
lugares que calculam, estimam esse
poder, esse soft power ao longo dos
últimos anos. E a gente vê, o Brasil é
um país relativamente rico em termos de
PIB. a gente tá aí na 19ª posição a
depender do ano, mas em vários desses
indicadores, tanto esse do brand que
você citou, como outro que existia, que
foi descontinuado, a gente sempre ficava
ali numa posição próximo da 30ª posição,
um pouco mais, um pouco menos. Então, a
gente tem um poder econômico
relativamente considerável quando a
gente compara o resto do mundo, mas o
soft power não conseguiu virar algo
relevante nesse sentido. Ele parte
também de uma construção. Não adianta
você ter um país bonito como o nosso,
potencialmente interessante do ponto de
vista turístico, ter carnaval, ter
grandes esportistas, se isso não é
vendido de uma forma adequada lá fora e
vira uma capacidade de atração pro país.
Então, a gente nunca soube e nunca teve
dentro da economia brasileira,
especialmente dentro das instituições,
uma construção da ideia desse poder,
diferente do que a gente vê acontecero
nos Estados Unidos. Os Estados Unidos
encampou o soft power, né, ao longo da
sua história, nos últimos 30 anos, e se
colocou como de fato o líder do soft
power no mundo. O Brasil sempre se
colocou numa posição de ter isso de
forma natural, mas sem investimentos
concretos para conseguir fazer isto
virar algo relevante e real e tangível.
>> Uhum. Passo agora a pergunta pra
Silvana. Qual é hoje o papel das grandes
empresas brasileiras? Você acredita na
construção de uma imagem internacional
sólida?
>> Legal. Essa é uma ótima pergunta, né?
Porque até quando a gente escuta aqui o
Sérgio, né, ele tá falando muito de de
influência, né? E quando a gente fala de
influência, a gente tá falando de
reputação, né? E reputação vem de quê?
Vem de vende marca, vende governança,
né? Vende de bem feitos, né? de
negócios, vem de uma imagem que a gente
projeta. E as grandes empresas
brasileiras elas atuam, né, para para
fazer negócios bem feitos, né? É aquilo,
é o que você faz, né? Não é só falar, é
fazer, né? E as grandes empresas elas
têm esse papel, né? De ir lá fora, de
fazer negócios bem feitos, de projetar
uma imagem de de ética, de de ser
correto, de mostrar capital humano bem
treinado, bem desenvolvido, né? Então
são várias frentes, né? frentes de
governança, frentes de compliance,
frentes de de negócios, de de fazer
direito, de pagar direito, de prometer,
entregar, né? E acho que as nossas
empresas elas têm elas têm crescido,
elas têm se projetado, elas têm
expandido, elas têm elas têm comprado
empresas lá fora e feito isso com muita
eh com muita
atitude correta, né? Seguido eh eh
governanças e e regulamentação
brasileira e internacional, né? Então,
na medida em que elas se projetam dessa
maneira, elas eh demonstram que o país é
assim, né?
>> É engraçado vocês falando aqui, eu tô me
lembrando de um publicitário que é o
Nizanguanes, que ele dizia assim uns uns
15 anos atrás, 20 anos atrás, na época
que a Luana Piovani tava no auge, o
Brasil é uma Luana Piovani e não sabe se
vender, não sabe aproveitar isso. Então,
será que falta investimento na marca
Brasil?
>> Sempre, sempre teve essa falta, na
verdade, né, M? Assim, a gente quando
fala de soft power, a gente tá falando
de uma condição muitas vezes natural que
os países têm. Não é sempre que você vai
ver isso de fato instigado e feito de
alguma forma que você gere algum
recurso, gere algum reconhecimento por
conta disso, até porque é um conceito
novo. Poucas instituições começaram a
fazer esses cálculos nos últimos anos e
acaba acontecendo de uma forma mais
natural, onde o Brasil sempre teve um
potencial muito grande eh na questão do
soft power e que muitas vezes tem idas e
vindas que são complicadas. as as nossas
relações internacionais, diplomacia, o
corpo diplomático brasileiro, sempre foi
um corpo diplomático extremamente
reconhecido lá fora, de altíssimo nível,
de altíssima qualidade. E que aconteceu
há alguns anos atrás, a gente passou
pela crise fiscal dos anos 15 e 16, né,
uma década atrás, e ao redor daquela
crise fiscal, a gente deixou de pagar
ONU, a gente deixou de pagar MC, a gente
deixou de pagar praticamente todos os
organismos multilaterais internacionais.
E aí a gente ia para esses organismos e
não tinha sido pago a mensalidade que
todos os países pagam. Então fica aquela
questão de que olha, você quer ser
alguém com uma posição internacional
importante, mas o mínimo e o básico que
é pagar, por exemplo, esta mensalidade
você não faz. O Brasil quando teve
aquele momento forte nos anos 2000, que
foi criado o termo bricks, né? Lembra
que o Din Oil em 2001 criou Brasil,
Rússia, China, Índia, depois entrou
África do Sul também. Ali foi um
momento, com os anos 2000, a China
crescendo, o Brasil também entrando num
processo forte de expansão econômica, a
gente virou uma economia mais saudável
do ponto de vista econômico. Aquilo
ajudou a impulsionar a nossa marca,
nossa imagem lá fora. Então, uma coisa
da da minha tese do estudo que sempre
saiu e na verdade é muito comum de se
ver é que para você ter um soft power
que de fato seja vigoroso, robusto, tem
um passo antes que você precisa ter, que
é uma uma estabilidade institucional e
econômica. Você precisa ter algum grau
forte e crescente desenvolvimento
econômico para esse soft power virar
algo relevante. E esse tem sido um dos
nossos dilemas, né? O Brasil é um país
que tem tido altos e baixos do ponto de
vista econômico ao longo das últimas
décadas. a gente não conseguiu marcar
uma estabilização grande para fazer com
que a marca Brasil de fato se torne
perene lá fora. A gente ainda não
conseguiu fazer isso.
>> Acho que para complementar um pouco o
que o Sérgio tá falando, acho que tem
outros eh ventos, né, contra que pesam,
por exemplo, quando o investidor
internacional olha pra gente, né, ou
quando outros organismos olham pra
gente. por exemplo, uma insegurança
jurídica, né?
>> Uma dificuldade, por exemplo, para um
investidor lá fora olhar quando olha
para cá para abrir uma empresa aqui.
Então, a nossa burocracia que é maior do
que em outros países, né? Então, um
capital lá fora quando olha para cá ele
fala: "Puxa, eu vou pro Brasil ou eu vou
para um outro país onde é mais fácil,
né? Eu investir, eu montar um negócio,
eu comprar uma empresa. Então, eh, isso
eh dificulta. Então a gente acaba sendo,
a gente tem uma população muito grande,
um mercado muito promissor, né? Aquela
coisa que o país, o Brasil é sempre o
país do futuro, né? Então a gente tem um
potencial muito grande, né? Tem tem
vários atrativos aqui. É um país fácil
de vir, né? Porque é um mercado grande,
eh população que é fácil, né? Fácil, a
gente aprende rápido, a gente é
criativo, tem muita criatividade, tem
muito capital humano, mas isso acaba
dificultando. Então, para as empresas
que estão aqui, a gente tem sempre que
passar barreiras mais altas, né? ou de
se vender lá fora ou aqui, a gente
também tem muito mais eh eh uma barra
muito mais alta, né, para para
ultrapassar, né? E e não e pegando esse
gancho, Silvano, a gente tá no momento
que o mundo tá numa inversão, né? Os
últimos dois anos, a gente pode até
estender um pouquinho mais, né? O mundo,
especialmente os países desenvolvidos,
estão num ciclo de baixa, digamos assim.
Então, um cenário em que o soft power,
que sempre foi muito poderoso, muito
intenso por parte desses países,
especialmente Estados Unidos nesse
momento, eles perderam um pouco desse
furor, né, dessa dessa imagem muito
forte. O Brasil tá na mesma, só que
neste mundo que piorou de qualidade, a
gente de repente se torna mais
interessante. Então é um momento da
gente explorar os ativos que a gente tem
importantes, especialmente ativos
renováveis, todo a quantidade de
commodities que a gente tem,
estabilidade política, né? Todos os
indicadores de democracia que estão
sendo divulgados nos últimos dois anos
colocam uma evolução muito grande da
qualidade democrática no Brasil. Vidém,
que é um grande instituto de pesquisa de
qualidade democrática no mundo, colocou
nesse último relatório que saiu agora em
março, o Brasil na frente dos Estados
Unidos. O TRV conseguiu estragar tanto a
institucionalidade americana ao longo de
um ano que a gente conseguiu passar de
uma forma quase natural a qualidade
democrática americana, que é uma coisa
inimaginável de se pensar apenas 5, 10
anos atrás. Então, a gente tem ativos
que são relativamente naturais e que
servem também de uma forma natural e sem
fazer grande esforço, como venda de
imagem lá fora. A Silvana deve estar
percebendo, eu tô percebendo sempre
hoje, que a gente aqui no Brasil reclama
muito da nossa condição, nossa condição
fiscal, os problemas que a gente
conhece, mas lá fora, quando o
estrangeiro vem pro Brasil, falei:
"Vocês estão reclamando do aqui? tá
muito mais complicado. O cenário fiscal
americano, por exemplo, é muito ruim, o
fiscal europeu também muito complicado.
A gente tem as coisas mapeadas, a gente
sabe mais ou menos o que vai precisar
fazer em 2027. a gente tem o caminho das
pedras, a gente fez algumas reformas
importantes nos últimos anos,
tributária, enfim, você tem um cenário
que o Brasil de repente, nesse momento,
de uma forma que foi dada a gente de
alguma forma tem esse potencial de
explorar esses ativos de uma forma
positiva, sem necessariamente a gente
chamar isso de uma forma concreta, com
números, ó, isso é soft power, mas tá
pintando um Brasil no meio deste mundo
muito complicado que tem algo
interessante a se vender, a se colocar.
Estabilidade geopolvírica. A gente não
tem problema de fronteiras.
Estas coisas estão se tornando ativos
importantes para as empresas, pros
governos e o Brasil, de repente, do
ponto de vista comparativo, relativo, de
repente se torna interessante.
>> Uhum. Silvana, em um cenário em que
confiança e reputação, como você falou,
são ativos estratégicos, né? Que
práticas ou iniciativas do setor
financeiro você acredita que possam
fortalecer o soft power brasileiro?
>> Excelente. O setor financeiro é um setor
chave, um ator chave nessa, né? né? Acho
que as empresas são, mas o setor
financeiro é chave aqui. Por quê, né?
Porque a gente tem acesso a capital, né?
Pode fornecer capital para esse para
paraas outras empresas, inclusive. E e a
gente tem, portanto, né, fornece
financiamento e no processo de fornecer
financiamento, a gente faz uma análise
de de empresas, faz gestão de risco, a
gente tem dados, né? E financiamento ele
não é neutro, né? Financiamento ele ele
faz o qu? Ele faz uma análise, né, de de
empresas, empresas boas, né? né? Quem
quem são quem são as empresas sólidas
que, né, quem quem não são isso tem
gestão de riscos. A gente avalia não só
se a empresa tem capacidade de
pagamento, mas se se a empresa tem
práticas, né, éticas, governança, se a
empresa tem práticas de direitos
humanos, né, a empresa tem práticas de
trabalho escravo, sim ou não, né? Então,
entre o SG, né, os bancos hoje têm que
ter práticas eh eh verdadeiras, né, de
de aplicar esse G. Então, o eu
ambiental, então uma uma políticas, né,
de de de prevenção, de de ajudar os seus
clientes a mudar para uma economia de de
eh de baixo carbono, né? Eh, toda a a
política de de
inclusão de direitos humanos,
governança, né? A gente usa dados,
prevenção a fraudes, a gente tava
falando, né? Prevenção a fraudes,
golpes, etc., uso de dados, né?
Tecnologia, inovação, né? eh cultura,
desenvolvimento de capital humano.
Então, os bancos, né, o setor
financeiro, de uma forma geral eh move a
economia, né, é algo sistêmico, é um
ecossistema, não é só também os bancos,
eles não tão mais só no seu mundo, né,
de de banco, de eh pegar capital e dar
empréstimos, né, como como era. É um é
um ecossistema que move muito a
economia. E os bancos eles são mesmo
bancos locais eles têm trades, né? Eles
são mais internacionais. E a reputação
dos bancos que é a mesma coisa, né? Se
um banco é sólido, o país é sólido, né?
Porque é eh ele gerenciam o um risco
sistêmico. Então isso é muito importante
porque passa uma reputação para fora,
né? Para fora das suas fronteiras. E
isso é muito importante para passar uma
imagem pro resto do mundo. E nessa coisa
dos bancos, você tá falando, Silvana,
nos bancos privados, a gente tem por
trás disso tudo como fiscalizador e como
agente maior dentro do Brasil, Banco
Central, que quando a gente fala de Salt
Power, as instituições importam muito. A
gente tá falando de um banco que
sistematicamente ao longo das últimas
décadas ganhou prêmios internacionais
como melhor banco central, como melhor
presidente Banco Central, tem uma equipe
técnica de altíssima qualidade, criou
criou coisas coisas ao longo dos últimos
anos extremamente importantes do ponto
de vista de ativo financeiro. O Pix é um
deles. Pix no Brasil, quando você
compara com esse tipo de instrumento
afora, especialmente os europeus, eu
lembro que vinham gente do dos bancos
centrais da Europa para cá para entender
o Pix nosso, porque o deles eram lentos,
os nossos eram rapidíssimos. Então
assim, tem um cenário em que esta
institucionalidade bancária via Banco
Central também é um soft power, é a
venda da imagem do país lá fora através
de uma instituição que foi criada duras
penas depois do período
hiperinflacionário, conseguiu se
consolidar de uma forma muito importante
com uma equipe técnica extremamente
qualificada e que vende essa imagem
positiva lá fora. o Banco Central que
consegue, desde a época que o Real
surgiu, controlar a inflação com as idas
e vindas, dificuldades da questão
fiscal, mas é um ativo muito importante
que a gente tem. você falando, Silvana,
me lembrei também de outro, que é a
questão quando a gente liga pro SG do
rastreamento da cadeia de carne, né, que
os bancos só dão financiamento para quem
não não tem trabalho escravo, para quem
tem a a o corte do boi corretamente eh
feito, não tem não ocupou terras de
desmatamento, então ocupa, como você
falou, todo um ecossistema do agro ali,
né, que é muito importante, inclusive
para os países que compram, né, os
nossos produtos. Eh,
>> exato. Hoje a nossa política de que é
muito gerida, gerida ou ou eh nos
delegada, né, pelo Banco Central, que é
a PRSAC, né, que é a política de
responsabilidade eh social, ambiental e
climática, né, e que, na verdade, também
além dela, a gente tem todas as
políticas aqui com a própria Febraban,
né, que é a autorregulação que a gente
tem, né, e que os bancos trabalham, eh,
no nos coloca diversas a a
regulamentações, autorregulamentação e
práticas, né? né, que que o setor adota
para que a gente tenha uma uma gestão de
de impacto efetivamente, não só dos
próprios bancos, mas com a nossa
carteira de clientes. Então, toda a
carteira ela é monitorada em termos de
emissões, em termos de rastreamento do
supply chain dos nossos clientes. E tem
um trabalho que os bancos fazem muito de
de letramento, de orientação, de
consultoria com esses clientes, né, de
como que esses clientes podem fazer o um
uma um o um mapeamento das suas
operações, né, para que eles façam essa
transição para uma economia de baixo
carbono, né? E isso é um é um processo,
claro, que não é de curto prazo, é um
processo de médio e de longo prazo, mas
que esses clientes investem, né, na nas
suas nas suas operações, nos seus
modelos de de negócio, pensando no
efeito climático e no efeito social
também, né? Porque também como é que
eles trabalham eh ações de diversidade,
de inclusão, de equidade, né, para que
lá na frente eles têm operações que são
mais sustentáveis e perenes no no longo
prazo, né? E tudo isso traz o quê? traz
reputação, traz credibilidade, né? Os
investidores, como eu falei, os órgãos
internacionais olham para isso e e isso,
na verdade, se traduz em quê? Em gestão
de riscos e em resultado para essas
operações. Porque no fundo é é isso que
vai se trazendo, né? Essas empresas, o
país como um todo fica mais sólido, né?
Fica mais duradouro.
>> Uhum.
>> Eh, Sérgio, do ponto de vista econômico,
reputação e confiança impactam
diretamente em investimento e
crescimento? assim, ele sozinho não
existe. A gente precisa ter esta base
econômica institucional muito bem
estabelecida para esse soft power
avançar. O caso americano agora é o caso
interessante da inversão, né? país que
historicamente sempre teve um soft power
muito poderoso, tá destruindo parte dele
pelo que o presidente americano tá
fazendo. Sérgio, o segundo Global Soft
Power Index 2026, ranking que mede a
capacidade de influência dos países com
base na percepção internacional, o
Brasil subiu, como a gente já falou,
duas posições entre 193 países e
alcançou o 29º lugar. fugindo dos
estereótipos futebol, carnaval e praia,
quais são os exemplos fortes do soft
power brasileiro?
>> E essa coisa do soft power tinha um
outro indicador antigamente que olhava
os 30 países. Uma vez a Argentina
apareceu do nada nos 30. Fui ver o que
que aconteceu com a Argentina aqui. Foi
um ano que o Messi jogou como nunca
tinha jogado antes. O Messi levou o
Brasil, Argentina pro pra posição, acho
que foi 29 ou 30ª posição. Então esses
eventos, Copa do Mundo, carnaval, eles
estão aí e colocam o país numa imagem
positiva. Que que eu acho que a gente
tem forte, já bastante trabalhado aqui
dentro, que a gente precisa trabalhar
mais para vender lá fora, que entra na
primeira palavrinha do ISD, que é a
questão ambiental, né? A gente tem uma
matriz elétrica inigualável. 92% da
nossa matriz é renovável, mais de 50% da
nossa energia total renovável. Então, no
mundo que tem uma questão climática
muito profunda e muito complicada, a
gente tem o que apresentar, a gente tem
o que vender como energia pro resto do
mundo de que, olha, a gente tá seguindo
um caminho de baixo carbono, né? Então,
este caminho é positivo. Agora, a gente
precisa ter uma construção que passa
também nesse sentido por Brasília, que é
o quê? você gradativamente continua
processo de diminuição de desmatamento,
que é uma parte importante de emissão de
gases de efeito estuvo que a gente tem
ao longo da nossa história e que também
aqui a gente tem idas e vindas, né?
Melhorou ao longo de um período, depois
no governo anterior voltou a subir,
começou a cair de novo agora. Então
assim, tem umas instabilidades nesses
critérios, nessas questões que colocam a
gente com ativo que é muito importante,
que eu acho que o ativo novo que a gente
tem em comparação com o nosso histórico
de carnaval, de esportes, de futebol,
que sempre foi o nosso soft power
natural, entrar essa na nessa agenda
ambiental como de fato algo que possa
ser positivamente vendável lá fora, que
a gente precisa adicionalmente a fazer
este caminho de fato a Amazônia ser um
objeto a ser explorado positivamente,
né? né? E não o objeto a ser explorado,
como muitas vezes ainda acontece hoje,
com desmatamento ilegal, com garimpo
ilegal, com coisas que ainda faz a
imagem brasileira lá fora ficar
negativo.
>> Silvana, você concorda que em algumas
áreas como a cultural, o Brasil tem
conquistado o maior reconhecimento e
influência internacional nos últimos
anos? Eu eu concordo. Acho que quando a
gente vê inclusive, né, os elementos lá
do do índice, acho que eh cultura
aparece forte, né, por pelas questões
que a gente conhece, o carnaval, o a
música, né, o cinema que agora, né, tem
ganhado muito mais relevância, né, acho
que alguns artistas, inclusive nossos
aqui, cantores, tal, que são famosos lá
fora, às vezes até mais famosos fora que
dentro, né? E e acho que isso isso
conta, né? Acho que ver o cinema, por
exemplo, como eu acabei de citar, é
interessante ver isso, né? E até mais
mais moderno, mais profissional, talvez
do que era antes, né? Mas eu acho que
quando a gente pensa até em cultura, vou
falar disso e e até o Bradesco tem
passado aqui por uma evolução cultural,
como a gente fala, né? Mas acho que o
Brasil poderia usar até a nossa cultura,
alguns elementos da nossa cultura
melhor. Isso a gente pode associar até
com as empresas, que foi uma pergunta
que a gente, um ponto que a gente falou
aqui, né?
a gente tem uma outra, a gente tem
alguns elementos, alguns traços da nossa
cultura e dos nossos valores que são
muito importantes. A gente poderia
alavancar melhor também, a gente eh
deve, eu acho, né, que é a nossa cultura
de eh inovação ou de solução de de
problemas. O brasileiro é um resolvedor
de problemas, né? Porque a gente tem
aqui, a gente é e a gente sabe lidar
criativo nisso, né? A gente sabe lidar
com vários problemas, né? Olha o nosso o
nosso povo, né? que qualquer coisa que
tem a gente resolve, a gente sai do
outro lado, né? A gente tem aqui um
ecossistema de de startups, de
criatividade, de empreendedorismo, né,
que a gente pode trabalhar muito melhor,
né? A gente tem muita criatividade para
isso. Eh, acho que a ligar isso talvez
melhor a valores, se a gente conseguisse
suplantar algumas coisas, como a gente
falou aqui do do dos impedimentos aqui
do do nosso da nossa burocracia, do
nosso eh do nossos impedimentos aqui
mais do do do judicial, etc., a gente
pode alavancar isso muito, né, que é o
falar e fazer aquilo que a gente tá
falando. Então, passar essa imagem, eu
acho que isso é através muito do próprio
setor privado, da das empresas privadas,
de como a gente mostra isso para fora.
Eu acho que o Brasil tem muito a ganhar
e poderia não só subir aqui nas nossas
eh nesse ranking, mas também eh levar
uma imagem diferente para fora.
>> Uhum. Você gostaria de complementar,
Sérgio? Ah, eu acho que é isso. A gente
tá no momento agora, de fato, quando a
gente olha a nossa história que a gente
precisa buscar essa estabilidade para
conseguir alavancar. Acho que o cinema
você colocou, Sim, é um exemplo muito
concreto nesse sentido. A gente teve
dois anos excepcionais, um filme em
Canar.
Que que é a Safra que vai vir pela
frente, né? a gente vê e compara com
país como a França, sempre investiu
pesadamente no cinema nacional, no
cinema francês. E a história disso é
enorme. A gente tem filmes de qualidade
que saem todo ano da França e eles
souberam fazer isso ao longo de décadas.
A gente tem momentos aqui no Brasil de
políticas de ajuda de incentivo ao
cinema que de repente seca, desaparece,
não tem mais nada. Então essa
instabilidade institucional em várias
frentes também é um problema. do cinema,
cultura, no geral, faz parte de um da
capacidade do estado de fazer isso
acontecer também, porque quando a gente
fala do soft power, não é só a parte
privada, o setor privado, as empresas.
Você precisa ter este estado por trás
muito bem estabelecido, coordenado e
equilibrado para você conseguir fazer
este softp florescer. Eu, que é o
exemplo que eu dei, por exemplo, de anos
atrás, que você queria estar nos órgãos
internacionais, mas você não pagava a
mínima conta mensal. E aí, como é que
você quer ser presidente da instituição
se você não tem, não tá nem pagando a
conta normal básica aqui? Então, a gente
precisa ter isso muito em conta para
pensar e lá na frente ter alguma
estabilidade no software power
brasileiro
>> e protagonismo, né? e protagonismo.
>> Nesse exemplo específico que você deu da
França, eu sei que eles têm uma
política, então realmente você vai paraa
política pública de que os exibidores de
cinema, quando eles passam os
blockbusters americanos, eles têm que
pagar um tributo imenso. E esse tributo
ele financia a indústria local. Então
eles até gostam, eles falam, uma vez um
francês falou para mim, a gente fala
venê blockbuster assim, porque com isso
esse dinheiro entra e esse dinheiro
então é uma coisa amarrada. Ele financia
o cinema nacional francês, né? Então,
>> e é uma política de estado de décadas
que funciona, sai governo, entra
governo, permanece. Aqui, sai governo,
entra governo, a gente muda tudo, de
repente tem que passar do zero.
>> Estabilidade nas políticas públicas.
Política Brasil é a depender do governo
de ocasião. E política pública não é
isso. Política seguida de uma forma
técnica. A gente tem esse problema no
Brasil. A gente vive isso, por exemplo,
e se tentou mudar o pouco nos últimos
anos, nos dois últimos governos tentou
de alguma forma mudar isso, de você
saber as políticas públicas que existem,
qual a métrica tá funcionando, tá
fazendo, tá tá acontecendo de fato, não
tá, tá gerando só prejuízo, vamos
terminar esse programa e investir no que
tá funcionando agora que a gente tá
começando a fazer essas métricas e aí
você consegue, essa política pública é
boa, funciona e isso ao longo do tempo
vai gerar naturalmente esse soft power
lá na frente. O que não pode é isso.
Entra um governo, sai outro, desmonta
tudo, traz os amigos, muda o corta o
dinheiro. Aí você fica no cenário que
não há soft power que aguente.
>> Sérgio, eu queria te fazer uma pergunta
aqui pra gente finalizar. Tem algum país
do mundo que a gente possa dar como
exemplo de que tenha saído de um estado
em que não era protagonista para um
state of art?
>> É, a Coreia do Sul é justamente um caso
desses interessantes, né? Porque é um
país que ao longo da história, das
últimas décadas, cresceu, virou uma
democracia mais estabilizada nos anos
80, então estabilizou sua sua
institucionalidade. País cresce de forma
significativa ao longo de todo esse
período, é um país com altíssimo nível
de educação lá de trás dos anos 60. A
gente sempre gosta no Brasil de comparar
com Coreia do Sul, o Sudeste asiático
inteiro. Aí a gente vai ver a parte, a
base de como começou. O Brasil tinha um
nível educacional extremamente baixo e
ficou baixo durante muito tempo. Esses
países já tinham um nível educacional
extremamente elevado. Então, a
estabilidade institucional, econômica
foi extremamente importante paraa Coreia
do Sul virar essa potência cultural que
a gente vê hoje, com cinema, com música
explodindo no mundo inteiro numa língua
que pra gente que é ocidental é
absolutamente incompreensível. Mas eles
conseguiram fazer uma coisa de uma forma
natural, via muitas vezes setor privado,
né, e fazer com que isso se
transformasse numa marca da Coreia do
Sul. Hoje todo mundo conhece Parasita
Teranho, o Oscar de melhor filme com o
filme sul-coreano em outra língua foi
uma coisa absolutamente inédita e
poderosa de você conseguir marcar a
imagem desse país lá fora. O Brasil tem
essa instabilidade e tem essa
dificuldade de fazer com que essa marca
fique perene. Coreia do Sul é um exemplo
de um país que soube investir ao longo
da sua história na economia, nas
instituições e tá pagando o preço
positivo disso, né? Quem sabe a gente
consiga um dia, né? Ir por esse caminho
também. É isso aí, marcar presença, né?
Um fato é certo, o Brasil tem ativos
reconhecidos globalmente, como cultura,
biodiversidade, esporte e uma presença
econômica relevante. Mas projeção
internacional não se constrói apenas com
visibilidade institucional. Ela exige
consistência entre discurso e prática,
imagem externa, realidade interna e
capacidade de execução. Fora tudo que
nós conversamos aqui. Ao longo do
episódio de hoje, nós vimos que
confiança, estabilidade institucional e
visão de longo prazo são elementos
centrais para transformar poder de
atração em influência concreta. E isso
não depende apenas do estado, mas
envolve também empresas e sociedade.
Obrigada, Sérgio Vale, Silvana Machada,
pela participação aqui com a gente.
Muito obrigada. E eu agradeço também a
você que nos acompanhou até aqui. Eu sou
Mona Dorf, diretora adjunta de conteúdo
digital da Febraban e este foi mais um
episódio do Febraban Podcast. Até a
próxima.
[música]
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